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27/05/06

A vida da cidade que já não é (incompleto)

Ora bem... então vamos lá arregaçar as mangas, agora que o mês está quase a acabar, que as contabilidades que tinham de ser entregues antes do fim do mês estão prontas, e que o stress abrandou um pouco.
Aproveitando um artigo muito bem escrito no verão passado e que coloca o dedo na ferida, aquilo de que eu gostava de escrever é sobre o sentido da vida, que hoje é algo de que simplesmente não se fala, não se escreve...



A VIDA DA CIDADE QUE JÁ NÃO É

Nova Orleães já não é. Uma cidade inteira, das mais simbólicas e ricas do mundo, desapareceu debaixo do desastre esmagador. De um dia para o outro, a terra do calor e ritmo, a combinação única de culturas, a personalidade incomparável deixou de ser. The Big Easy já não há.

Será certamente reconstruída, mas a nova Nova Orleães nunca será a velha Nova Orleães. Os novos sítios não substituirão os antigos recantos. O cheiro da tinta fresca cobrirá três séculos de História. Sobretudo, as vidas perdidas que deram vida à velha Nova Orleães nunca mais regressarão. A nova Nova Orleães será certamente grande e bela, terá certamente calor e ritmo, mas não será mais Nova Orleães. Nova Orleães já não é.

Perante o desastre, a cultura mediática entrega-se à tarefa mais ociosa e inútil denunciar responsáveis e ralhar com culpados. Faz assim em todos os desastres naturais. Nos fogos florestais portugueses, como no tsunami natalício do Índico ou no furacão de Nova Orleães. A culpa é dos ministros, dos interesses económicos, dos presidentes da câmara ou dos presidentes nacionais. O Governo tem culpa da seca, do envelhecimento, da desertificação. Perante a calamidade, discute-se política e exigem-se meios técnicos. Como se isso fosse a causa e a solução. Claro que houve erros e faltam recursos. Claro que se exigem reforços e novas medidas. Mas há algo que vai muito para lá disso tudo.

Esquecem que, por melhores que sejam os detectores de maremotos ou furacões, por mais fortes que sejam os diques ou os bombeiros, por mais que limpemos as matas ou compremos aviões, há uma dimensão irredutível e inelutável na nossa vulnerabilidade. O poder humano é minúsculo perante a catástrofe.

Plínio e todo o Império Romano ficaram chocados com a destruição de Pompeia em 24 de Agosto de 79. Voltaire e todo o Iluminismo ficaram chocados com a destruição de Lisboa em 1 de Novembro de 1755. Agora todos ficámos chocados com a destruição de Nova Orleães em 29 de Agosto de 2005. Vulcões, terramotos, furacões. Não melhorámos muito em dois mil anos. Quando a nação mais rica e poderosa de todos os tempos perde uma das suas grandes cidades em poucas horas, tem de haver algo muito para lá disto tudo.

O que há para lá disso é a suprema estupidez de perder uma cidade em poucas horas. Toda a beleza, toda a elevação e elegância, todo o fervilhar e animação, todo o calor e ritmo, toda a vida de Nova Orleães já não é. Esta é a suprema estupidez que fica para lá de todos os debates. Mas esta estupidez é a estupidez de toda a vida. O que aconteceu a Nova Orleães em poucas horas é o que acontece a todas as cidades ao longo do tempo. A velha Roma já não é, tal como a velha Pompeia. A velha Lisboa já não é, a de ontem como a de 1754. Os que morrem pacificamente hoje nas suas camas não são, tal como Nova Orleães. A suprema estupidez é a perda, a mudança, o fim a que tudo está sujeito. Nada há mais certo que a morte. Subitamente ou devagar; e por vezes a agonia lenta é ainda mais estúpida que a súbita. O fim é a suprema estupidez de toda a vida.

Mas o sentido de tudo advém da sua finalidade, tal como a razão da viagem é o destino. A perda e o sofrimento ganham significado pelo que vem depois. A horrível dor de parto justifica-se pelo nascimento. O cirurgião que amputa não é estúpido, porque salva o corpo todo. O semeador que enterra comida não é tonto, porque ela germina. A morte só é estúpida se nada vier depois. Vista apenas do lado de cá, a vida é estúpida porque morre. Vista a partir daquilo em que morte a transforma, a vida ganha sentido. Como a semente.

Todos os tempos, todas as culturas, sempre compreenderam que a vida, toda a vida, só tem sentido quando vista depois da morte. Quer o fim seja lento, quer súbito, como Nova Orleães, a vida só ganha sentido quando ultrapassa a morte. Esta é uma verdade universal, presente em todas as culturas. Todas, menos esta estúpida cultura mediática que vê desaparecer Nova Orleães sem perceber para onde ela foi.

Publicado no Diário de Notícias, em 12/09/2005, por João César das Neves




A nossa cultura contemporânea é, nestes assuntos, "estúpida" e "ridícula", simplesmente porque foge de encará-los.
Ao contrário do que acontecia há algumas gerações atrás as pessoas já não morrem em casa, rodeadas pela família; o mais comum é morrerem no hospital, muitas vezes acompanhadas apenas do pessoal médico.
Um grande amigo meu uma vez disse que "da forma como encaramos a morte, depende a forma como vivemos a vida". Isto é uma verdade enorme, e a atitude que a maioria de nós tem hoje, em relação à morte, é simplesmente ignorá-la o mais possível. Tentamos passar a imagem de sermos uma geração sem tabus... quando a realidade é que somos uma geração com tabus diferentes das gerações anteriores. Deixámos de ter tabus relativamente ao sexo, à política, ... mas deixámos de falar da morte.

(a acabar quando tiver tempo...)

04/01/06

Personalismo democrático (Inglês)


Há cerca de 3 anos, quando eu estava em Roma, na Emmanuel School of Mission , um dia tivemos a visita para jantar do Arcebispo de Sidney, que era muito amigo do director da escola.
O arcebispo jantou connosco, e no final do jantar tivemos uma conversa muito interessante na sala de estar entre os alunos e o arcebispo. Lembro-me que estávamos no período exactamente antes de começar a guerra no Iraque, e que eu falei sobre o tema e coloquei várias perguntas. Na altura fazia-me confusão a forma de falar sobre a guerra dos meus colegas americanos, e perguntava-me se o simples facto de sermos cristãos não nos devia ser suficiente para sermos contra todas as guerras. O arcebispo deu-me uma resposta cheia de equilíbrio e de sabedoria, que para mim foi uma lição. Mostrou-me em que é que achava que eu tinha razão, e onde é que eu não estava a ser realista. Entre outras coisas disse que qualquer cristão, para ser minimamente coerente tinha que desejar a paz com todas as forças, mas que nem todas as guerras podiam ser evitadas. Que um país precisava de um exército tal como precisava de uma polícia, e que Cristo sempre foi pacífico, mas não evitou os militares. Nem tão pouco João Baptista, ao falar aos militares, lhes pediu que abandonassem as armas.
Uns meses mais tarde, enquanto ainda estava em Roma, o arcebispo foi nomeado Cardeal.
Por estes dias, encontrei uma proposta muito lúcida para enfrentar a crise da democracia que atravessamos. Vale a pena ler.

http://www.acton.org/publicat/m_and_m/new/article.php?article=7

13/12/05

O advento

O advento tornou-se um tempo estranho e difícil de viver.
Isto porque é um tempo de espera.
E desabituámo-nos de esperar.

Tentamos que tudo seja feito o mais rapidamente possível. Atafulhamos os nossos horários até não existirem tempos de paragem. Às vezes até haver sobreposição de tempos. Chegamos ao cúmulo de nos sentirmos estranhos quando simplesmente temos tempo para parar. As jovens mães já não esperam os bébes, limitam-se a fazer uma interrupção na sua vida frenética quando tem mesmo de ser, umas semanas antes do parto. ... E falar em espera no contexto de namoro é quase sarcástico.

Contudo, algumas coisas têm mais valor quando são esperadas.
Coisas muito variadas, desde as que mencionei acima até à refeição que esteve horas a preparar e encheu a cozinha de um cheirinho delicioso que nos abriu o apetite.
Na ânsia de querer tudo agora e já, receio que tenhamos deixado escapar muito do sabor da vida.

Acusar-me-ão sem dúvida de machismo e de ser reaccionário até ao indefensável, mas estou convencido de que uma das razões desta falta da capacidade de esperar, bem como do frenesim em que o mundo de hoje se transformou, está na falta do elemento feminino. O assunto mereceria um outro blog separado, ou talvez um pequeno livro, mas a verdade é que eu acho que falta feminino no mundo, porque as mulheres se demitiram de o serem.

Não estou aqui a defender a posição de que o lugar da mulher é em casa. Estou a defender a posição muito mais subtil de que o lugar da mulher na sociedade se deve encontrar permitindo às mulheres que permaneçam femininas e que esse permanecerem femininas implica reconhecerem que existe um papel fundamental e valiosíssimo a desempenharem nas famílias que ninguém poderá desempenhar por elas.

Mas aqui talvez o melhor seja calar-me e deixar que sejam elas a falar: encontrei estes dois blogs, que achei virem mesmo a propósito, e que dizem aquilo que eu gostava de dizer muito melhor do que eu seria capaz.

http://www.amodaantiga.blogger.com.br/2005_03_01_archive.html#35703169

http://okiehillgirl.blogspot.com/2005/12/it-aint-snow.html

E para voltarmos a ser capazes desta espera (particularmente nós homens), podíamos seguir o convite feito pelo Papa este domingo:

"Deixemo-nos contagiar pelo silêncio de São José! Faz-nos tanta falta em um mundo com freqüência demasiado ruidoso, que não favorece o recolhimento e a escuta da voz de Deus. Neste tempo de preparação do Natal, cultivemos o recolhimento interior para acolher e custodiar Jesus em nossa vida."