17/07/09

Caritas in veritate

Alguns extractos:

1. O amor é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. [...] Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projecto.


Quando será que eu aprendo (ou volto a reaprender, talvez?) a amar assim? A olhar para os outros à minha volta com a consciência de que a verdade profunda sobre eles é que foram criados por amor. Para o amor. Para serem uma benção e uma fonte de felicidade e de alegria, de ajuda e de amizade uns para os outros.

3. Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal.


5. O desenvolvimento, o bem-estar social, uma solução adequada dos graves problemas sócio-económicos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda, necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os actuais.


7. Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. [...] Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê resposta também às suas necessidade reais. Todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis.


9. O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva o autêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples progresso técnico e por meras relações de conveniência, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre à reciprocidade das consciências e das liberdades. [...] Sem verdade, cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da acção porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. [...] Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável.


11. Muitas vezes, ao longo da história, pensou-se que era suficiente a criação de instituições para garantir à humanidade a satisfação do direito ao desenvolvimento. Infelizmente foi depositada excessiva confiança em tais instituições, como se estas pudessem conseguir automaticamente o objectivo desejado. Na realidade, as instituições sozinhas não bastam, porque o desenvolvimento humano integral é primariamente vocação e, por conseguinte, exige uma livre e solidária assunção de responsabilidade por parte de todos. Além disso, tal desenvolvimento requer uma visão transcendente da pessoa, tem necessidade de Deus: sem Ele, o desenvolvimento ou é negado ou acaba confiado unicamente às mãos do homem, que cai na presunção da auto-salvação e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado.


14. Contra a ideologia tecnocrática, hoje particularmente radicada, já Paulo VI tinha alertado, ciente do grande perigo que era confiar todo o processo do desenvolvimento unicamente à técnica, porque assim ficaria sem orientação. A técnica, em si mesma, é ambivalente. Se, por um lado, há hoje quem seja propenso a confiar-lhe inteiramente tal processo de desenvolvimento, por outro, assiste-se à investida de ideologias que negam in toto a própria utilidade do desenvolvimento, considerado radicalmente anti-humano e portador somente de degradação. Mas, deste modo, acaba-se por condenar não apenas a maneira errada e injusta como por vezes os homens orientam o progresso, mas também as descobertas científicas que entretanto, se bem usadas, constituem uma oportunidade de crescimento para todos. A ideia de um mundo sem desenvolvimento exprime falta de confiança no homem e em Deus. Por conseguinte, é um grave erro desprezar as capacidades humanas de controlar os extravios do desenvolvimento ou mesmo ignorar que o homem está constitutivamente inclinado para « ser mais ». Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade.

29/01/09

Hillaire Belloc

Poema do escritor inglês de origem francesa Hillaire Belloc. Um poema com um lado profético, dado que foi publicado em 1928.

Our civilization
Is built upon coal.
Let us chant in rotation
Our civilization
That lump of damnation
Without any soul,
Our civilization
Is built upon coal.

In a very few years,
It will float upon oil.
Then give three hearty cheers,
In a very few years
We shall mop up our tears
And have done with our toil.
In a very few years
It will float upon oil.

26/11/08

Cora Coralina (poetisa brasileira)

NÃO SEI

Não sei... se a vida é curta...
Não sei... 
Não sei...
se a vida é curta 
ou longa demais para nós. 
Mas sei que nada do que vivemos 
tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. 
Muitas vezes basta ser: 
colo que acolhe, 
braço que envolve, 
palavra que conforta, 
silêncio que respeita, 
alegria que contagia, 
lágrima que corre, 
olhar que sacia, 
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo: 
é o que dá sentido à vida. 
É o que faz com que ela 
não seja nem curta, 
nem longa demais, 
mas que seja intensa, 
verdadeira e pura... 
enquanto durar.


POEMINHA AMOROSO

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…


15/09/08

O Reino de Deus

No seu livro O Reino de Deus está próximo, João César das Neves analisa a história da humanidade do ponto de vista da nossa relação colectiva com Deus, desde a alta idade média aos nossos dias. Nessa sua análise inclui, para cada século, uma obra que de alguma forma reflecte e resume o essencial desse século. Para o século XX escolheu o filme Jurassic Park.

Ao contrário das outras escolhas, não acho que tenha sido uma escolha certeira. Na minha opinião pessoal escolheria 3 obras diferentes para resumir o espírito do século XX: O Senhor dos Anéis, A Guerra das Estrelas e o Harry Potter. Se tivesse de reduzir-me a uma única escolha seria O Senhor dos Anéis.

Um dos aspectos que une claramente estas três obras é a luta entre o bem e o mal. Aqui há matizes muito diferentes entre as três obras, mas todas reflectem muito claramente a nossa história colectiva do último século. É impossível não reconhecer na Estrela da Morte de Darth Vader a bomba atómica, não reconhecer no racismo dos Devoradores da Morte puros-sangue o racismo nazi, não reconhecer nos estados de alma dos membros da Irmandade do Anel arrancados do Shire para se embrenharem em Mordor os estados de alma dos soldados da Segunda Guerra Mundial arrancados aos campos ingleses para irem combater nos cenários devastadores das trincheiras. E esta é uma questão que também resume o essencial do espírito do nosso tempo. Depois das guerras mundiais passou a ser completamente impossível a noção ingénua de progresso, em que o futuro seria sempre melhor, e a única razão dos males do passado era o atraso tecnológico e a pobreza material. Tornou-se evidente, excepto para alguns cegos voluntários, que o mundo é e continuará a ser o palco de uma luta gigantesca entre o bem e o mal.

Outro aspecto que une estas três histórias é a magia, algo que pode parecer estranho para resumir a essência de uma época tão tecnológica e tão pouco dada ao espiritual, ao transcendente e mesmo ao fantasioso. Mas no fundo, e como se vê claramente na inspiração genial de George Lucas, a tecnologia é apenas uma tentativa diferente de fazer magia. Por mais computadores, lasers, e automatização que tenhamos; o que queremos, no fundo, é obrigar a matéria a obedecer à nossa vontade. Se existir uma força a dominar o mundo nós queremos ser capazes de controlá-la a nosso bel-prazer. O mesmo se passa com o Harry Potter. As histórias são interessantes exactamente porque teria muito mais piada se tivessemos uma varinha e pudessemos mudar o mundo com um feitiço e um agitar da varinha. Em relação ao Senhor dos Anéis, tenho que tirar o chapéu ao Tolkien, porque acho que ele conseguiu levar a história muito mais fundo, colocar realmente o dedo na ferida, e a magia do Senhor dos Anéis faz-nos reflectir muito mais e chegar a conclusões muito diferentes das outras duas obras.

George Lucas consegue fazer-nos pensar na origem do mal (quando vemos o pequeno Anikin, um puto engraçadíssimo, que seguramente nenhum de nós imaginou ao ver a personagem do Darth Vader da trilogia filmada antes) e no que pode causar a reabilitação, o regresso ao bem (a cena final em que Darth Vader dá a vida para salvar o filho).

J. K. Rowling consegue, de forma mais "infantil" (à falta de adjectivo melhor), fazer-nos pensar um pouco no poder salvífico do amor. E na camaradagem. E na origem do mal com os flashbacks sobre a origem de Voldemort. E na morte, que é o grande tabu dos nossos dias, sobretudo em livros para um público infantil/juvenil. E também, através sobretudo de Dumbledore, fazer-nos pensar sobre a paternidade e sobre a misericórdia.

Mas Tolkien leva-nos muito mais longe. Cada vez que o releio encontro novos significados. Tolkien conseguiu encontrar novas formas de exprimir verdades antigas, de forma que se tornam perceptíveis para a grande maioria de uma população cristã de rótulo mas neo-pagã na essência. Podia ficar aqui a elencar os inúmeros simbolismos cristãos da obra. Mas vou apenas chamar a atenção para 3 coisas. A primeira é a tripla representação de Cristo nos seus três atributos de Sacerdote, Profeta e Rei, respectivamente Frodo, Gandalf e Strider. A segunda é a verdade que o mal não pode ser vencido pela força, é demasiado forte e demasiado extenso para isso. Mas o mal acaba por destruir-se a si mesmo. Foi o que aconteceu ao ser destruído o anel na lava. E foi o que aconteceu na cruz de Cristo. A brutalidade dos guardas, o calculismo de Pilatos, a hipocrisia dos fariseus, a traição de Judas, a cobardia dos outros apóstolos, a indignidade de Herodes, a ingratidão da multidão são uma manifestação extremamente clara do mal. E culminou na derrota desse mal, que nunca poderia ter sido tão completa sem essa manifestação em toda a sua força. E foi o que aconteceu no nosso século: as guerras mundiais foram consequências de nacionalismos parvos que já existiam há alguns séculos, mas que nunca se tinham manifestado em toda a sua força e maldade. E foi depois dessa manifestação do mal em toda a sua força que foi possível escrever a declaração dos Direitos do Homem, lançar as bases da União Europeia, começar a tratar os judeus como nossos irmãos. Finalmente, o anel é um símbolo perfeito da luta que vivemos: só podemos realmente atingir a vitória quando desistirmos do poder do anel. Quando desistirmos de ter o poder. Porque o que mais caracteriza este século que passou, na relação da humanidade com Deus, e por conseguinte na própria história da humanidade foi o regresso em toda a pujança da tentação antiga: Sereis como Deuses. O nazismo, o comunismo, as guerras mudiais, a guerra fria, as outras guerras mais pequenas e as tragédias em pequena escala que acontecem em cada família, em cada escola, em cada local de trabalho, em cada alma, geralmente têm a ver com isto. Queremos o poder de transformar o mundo à nossa vontade. Na ilusão de que isso nos faria felizes. Não faz. Faz com que nos destruamos uns aos outros fisicamente, e que nos destruamos a nós próprios no nosso interior.

O que nos faz felizes é outra coisa. É a doação genuína e generosa de nós próprios. E é o acolhimento do dom que os outros nos fazem a nós. A felicidade não se conquista, acolhe-se.

Estou aqui Senhor, quero ser feliz. Se vai ser preciso aceitar que passes a ser Tu a controlar a minha vida e a fazer-me feliz, ajuda-me que isto não vai ser fácil.

Venha a nós o Vosso Reino! Que as nossas vidas se transformem no plano de Amor que Tu tens para nós, em vez de serem esta batalha fraticida em que nos envolvemos aos tentarmos concretizar cada qual os seus planos pessoais. Que sejamos capazes de aceitar que o Rei és tu, e não nós.